Wagner Tomaz: A ovelha e o Pastor

Em uma noite chuvosa, em meio a relâmpagos e trovões, uma ovelha deu à luz um cordeiro. O pequeno animal nasceu extremamente frágil e debilitado.

Pouco tempo depois, porém, foi rejeitado pela própria mãe. Seu antigo proprietário, convencido de que o cordeiro não sobreviveria, decidiu abandoná-lo em uma estrada deserta, distante de sua fazenda, deixando-o à própria sorte.

Naquele dia, a chuva caiu incessantemente. Foi quando um rebanho, conduzido por seu pastor, passou por aquela estrada. Ao perceberem a presença de um pequeno cordeiro caído à margem do caminho, os animais se aproximaram. Ele estava desnutrido, enfermo e coberto de lama, sem forças sequer para se levantar.

Movido por profunda compaixão, o pastor tomou o pequeno animal nos braços e o levou para sua fazenda. Ali, limpou suas feridas, cuidou de sua enfermidade e dedicou-lhe toda a atenção necessária para que pudesse sobreviver. Dia após dia, tratou daquele cordeiro com paciência, zelo e amor.

Meses se passaram, e aquele pequeno animal, que antes parecia condenado à morte, transformou-se em um dos mais belos cordeiros de todo o rebanho. Tornou-se também extremamente apegado ao pastor, que o acolhera quando ninguém mais acreditava em sua sobrevivência.

Com o passar do tempo, o cordeiro começou a frequentar os arredores de uma fazenda vizinha, onde conheceu outro rebanho. Naquele lugar, fez novas amizades e acabou se apaixonando por uma linda ovelha.

Entretanto, aquela ovelha possuía um temperamento difícil. Era rebelde, astuta e egoísta, além de demonstrar uma preocupante habilidade para manipular aqueles que viviam ao seu redor. Apesar dessas características, o cordeiro, tomado pela ingenuidade e pelo fascínio que sentia por sua beleza, não conseguiu enxergar os perigos que se escondiam por trás de sua aparência encantadora.
Assim, entregou seu coração àquela que julgava ser o grande amor de sua vida.

Alguns dias depois, ao perceber que o cordeiro estava apaixonado por uma ovelha de outro rebanho, o cabrito ancião aproximou-se dele e, com a sabedoria adquirida ao longo dos anos, procurou aconselhá-lo. Explicou-lhe que aquela aproximação poderia afastá-lo dos cuidados de seu pastor e colocá-lo em situações perigosas.

O cordeiro, porém, recusou-se a ouvir os conselhos. Convencido de que sua beleza e a estima que recebia do pastor o tornavam especial, passou a acreditar que o cabrito estava apenas com inveja de sua felicidade.

Semanas se passaram. Consumido pela saudade e pelo desejo de reencontrar a ovelha por quem estava apaixonado, o cordeiro tomou uma decisão imprudente: fugiu do curral e seguiu em direção à fazenda vizinha, sem pedir permissão ao pastor e sem considerar os perigos que poderia encontrar pelo caminho.

Durante a jornada, foi surpreendido por um lobo feroz, que passou a persegui-lo. Ao perceber que estava prestes a ser alcançado, o cordeiro entrou em desespero e, tomado pelo medo, começou a gritar por socorro.

Naquele instante, o cão pastor, fiel guardião do rebanho, surgiu para protegê-lo. Sem hesitar, enfrentou o lobo em uma luta feroz, arriscando a própria vida para salvar aquele que, por imprudência, havia se colocado em perigo.

Durante o confronto, o cão pastor foi gravemente ferido. Diante da gravidade da situação, tornou-se necessária a intervenção do pastor, que correu para resgatar os dois animais.

Enquanto lutava contra a dor, o fiel cão pastor voltou-se para o pequeno cordeiro e, com a voz enfraquecida, pronunciou suas últimas palavras de advertência:

— Nunca se afaste do seu pastor, pois é ele quem verdadeiramente o ama, cuida de você e deseja protegê-lo dos perigos que seus olhos ainda não conseguem enxergar.

Embora assustado com tudo o que havia acontecido, o cordeiro não permitiu que aquela advertência transformasse seu coração. Continuava acreditando que, por ser belo e amado, jamais sofreria uma repreensão severa de seu pastor. Em sua mente, o amor que recebia era uma garantia de que suas escolhas jamais lhe trariam consequências.

Na manhã seguinte, o cordeiro aproximou-se da casa do pastor e o viu carregando o corpo sem vida de seu fiel cão pastor.

A notícia daquela perda espalhou tristeza por todo o rebanho. Todos choraram profundamente, pois amavam aquele guardião que, além de protegê-los dos predadores, também os aconselhava, escutava suas dificuldades e estava sempre disposto a ajudá-los.

O cordeiro, por sua vez, ficou profundamente amargurado. Sabia que sua desobediência havia contribuído para aquela tragédia e que o fiel cão pastor perdera a vida enquanto tentava salvá-lo.

Entretanto, embora sentisse o peso daquela perda, sua tristeza ainda não havia se transformado em verdadeiro arrependimento. Lamentava as consequências de sua escolha, mas não estava disposto a abandonar o orgulho que o levara a desobedecer.

Algum tempo depois, voltou a encontrar o rebanho ao qual pertencia a ovelha por quem continuava fascinado. Ao se aproximar dela, esperava ser recebido com carinho e consideração. Para sua decepção, porém, a ovelha passou a desprezá-lo e a humilhá-lo diante de todos os animais que estavam presentes.

Sem demonstrar compaixão, ela declarou que a beleza do cordeiro não era suficiente para fazê-la feliz. Afirmou que jamais trocaria a vida que desejava por aquilo que, em sua opinião, representava o fracasso de viver naquela fazenda.

Mais uma vez, o cabrito ancião aproximou-se do cordeiro e o aconselhou a se afastar daquela ovelha. Explicou-lhe que a verdadeira afeição não se sustentava na aparência, no orgulho ou nos interesses pessoais, mas no respeito, na lealdade e na disposição de cuidar do outro. Aquela ovelha, entretanto, não demonstrava apreço pelo pastor nem pelos princípios que orientavam a vida daquele rebanho.

Dessa vez, o cordeiro chegou a refletir sobre os acontecimentos que havia enfrentado. Recordou a morte do cão pastor, as advertências que ignorara e a humilhação que acabara de sofrer. Ainda assim, seu orgulho falou mais alto do que a prudência.

Convencido de que era superior aos demais animais, interpretava cada conselho como uma manifestação de inveja. Acreditava que ninguém compreendia a intensidade de seus sentimentos e que somente ele sabia o que era melhor para sua própria vida.

Assim, ignorando novamente os conselhos recebidos, fugiu do curral e seguiu em direção à fazenda vizinha, determinado a reencontrar a ovelha que tanto o fascinava.

Entretanto, antes de alcançar seu destino, foi surpreendido por uma serpente escondida entre a vegetação. O animal peçonhento, conhecido por atacar os cordeiros que passavam distraídos por aquele caminho, desferiu-lhe uma picada venenosa.

Enfraquecido pelo veneno, o cordeiro caiu ao chão, sem forças para continuar. Mais uma vez, a imprudência o havia conduzido a uma situação em que sua vida dependia da ajuda de alguém.

O cabrito ancião, percebendo sua ausência e conhecendo os caminhos que costumava percorrer, decidiu seguir seus rastros. Depois de procurá-lo por algum tempo, encontrou-o caído no solo, debilitado e quase sem forças para reagir.

Sem perder tempo, correu em busca do pastor. Confiava profundamente na bondade daquele homem e sabia que, mesmo diante de tantas desobediências, ele jamais deixaria de se importar com a vida de um animal sob seus cuidados.

Ao encontrar o cordeiro, o pastor tomou-o novamente nos braços e o levou para a fazenda. Empenhou-se em salvá-lo, providenciando os cuidados necessários e utilizando os recursos de que dispunha para que pudesse sobreviver.

Mais uma vez, o cordeiro recebeu a oportunidade de continuar vivendo, graças à dedicação daquele que nunca havia desistido dele.

Meses depois, recuperado da enfermidade, o cordeiro voltou a caminhar com liberdade pelo pasto. Contudo, sua recuperação física não significou uma transformação interior. Seu coração continuava preso ao mesmo fascínio, e o desejo de reencontrar aquela ovelha permanecia vivo.

Apesar de tudo o que havia acontecido, ainda não aprendera a distinguir o amor verdadeiro de uma paixão alimentada pela aparência e pelo orgulho.

Certo dia, o pastor percebeu que o cordeiro havia desaparecido novamente. Preocupado com sua segurança, deixou os demais animais sob os cuidados disponíveis e partiu à sua procura.

Depois de percorrer os arredores da fazenda vizinha, encontrou a ovelha por quem o cordeiro estava apaixonado. Ela se encontrava perdida em um lamaçal, debilitada e incapaz de sair dali. Para agravar a situação, havia sido atacada por um lobo feroz, o mesmo tipo de predador que, naquela primeira fuga, havia enfrentado o cão pastor.

O pastor aproximou-se com cautela, retirou-a daquele lugar perigoso e a conduziu de volta ao rebanho. Durante o resgate, percebeu que uma das patas da ovelha estava gravemente comprometida. Para impedir que ela voltasse a fugir e se expusesse novamente ao perigo, tomou a difícil decisão de imobilizar e manter a pata ferida sob restrição de movimento, conforme os cuidados necessários à sua recuperação.

Ao perceber a limitação de seus movimentos, a ovelha reagiu com indignação. Revoltada, passou a questionar a atitude do pastor, pois estava convencida de que era a mais amada entre todos os animais do rebanho. Para ela, era inadmissível que alguém que afirmava cuidar de suas ovelhas permitisse que enfrentasse tamanha dor.

Foi então que o cabrito ancião se aproximou, encontrando o cordeiro profundamente abalado diante daquela situação. Com serenidade, dirigiu-se a ele e disse:

— Meu caro cordeiro, por que questionas as atitudes de nosso pastor sem compreender a gravidade do perigo do qual ele acaba de resgatar aquela ovelha? Não percebes que, ao retirá-la daquele lamaçal e impedir que voltasse a se aventurar pelos mesmos caminhos, ele procurou preservar sua vida? A limitação que agora enfrenta pode ser dolorosa, mas também pode representar o início de sua recuperação.

O cabrito fez uma breve pausa e continuou:

— Precisas compreender que o amor de nosso pastor não se mede pelos privilégios que concede, tampouco pela ausência de dificuldades. Ele cuida de cada um de nós segundo nossas necessidades, e sua dedicação não depende de nossa beleza, de nossa força ou de nossa posição no rebanho. A maior prova de seu amor está no zelo com que nos procura, na paciência com que nos acolhe e na disposição de nos resgatar quando nos perdemos.

Em seguida, aproximou-se ainda mais do cordeiro e acrescentou:

— Lembra-te de que o verdadeiro amor não consiste em permitir que alguém siga todos os seus desejos, mesmo quando eles o conduzem à destruição. Às vezes, o cuidado exige limites, e a correção pode causar dor àquele que a recebe. Contudo, quando nasce do amor e é aplicada com sabedoria, sua finalidade não é humilhar, mas preservar, orientar e restaurar.
O cordeiro permaneceu em silêncio, enquanto aquelas palavras penetravam lentamente em seus pensamentos.

O cabrito, então, concluiu:

— Tem bom ânimo, meu caro cordeiro. Assim como eu também precisei aprender com minhas próprias experiências, tu ainda poderás compreender a profundidade do cuidado de nosso pastor. Ele deseja que permaneças firme ao seu lado, recebendo proteção, orientação e companhia durante o dia e a noite. Não permitas que o orgulho te impeça de reconhecer aquele que nunca deixou de te amar. Enquanto houver vida, haverá oportunidade para aprender, mudar de direção e reencontrar o caminho seguro. E chegará o grande dia em que todos estaremos reunidos, livres de todo perigo, para vivermos em paz ao lado daquele que nos amou primeiro.

Naquele momento, o cordeiro começou a compreender que a beleza que tanto valorizava jamais seria suficiente para protegê-lo dos perigos do mundo. Também percebeu que a liberdade, quando confundida com a ausência de limites, poderia conduzi-lo à própria ruína.

Acima de tudo, começou a entender que o pastor não o havia acolhido por sua aparência, nem o preservara por sua superioridade em relação aos demais. O pastor o amara quando ele ainda era frágil, desprezado e incapaz de oferecer qualquer coisa em troca.

E talvez essa fosse a lição mais importante de todas: o amor verdadeiro não abandona aquele que se perde, mas também não transforma a imprudência em virtude. Ele acolhe, orienta, protege e, quando necessário, corrige, sempre buscando o bem daquele que ama.

*Moral da fábula:* Não confundas o amor com a permissão para fazer tudo o que desejas, nem a correção com a ausência de afeto. A aparência pode despertar admiração, mas é a humildade que nos permite reconhecer o valor dos bons conselhos. Quem despreza a orientação de quem verdadeiramente o ama corre o risco de aprender pela dor aquilo que poderia ter aprendido pela sabedoria. E nunca te esqueças: o verdadeiro pastor não é aquele que apenas acompanha o rebanho quando tudo está bem, mas aquele que sai à procura de quem se perdeu, enfrenta os perigos para resgatá-lo e permanece disposto a conduzi-lo de volta ao caminho da vida.

O pastor representa o cuidado amoroso de Deus; o rebanho, aqueles que vivem sob esse cuidado; o cordeiro, aquele que se deixa conduzir pelo orgulho e pelos próprios desejos; e o cabrito ancião, a sabedoria de quem procura orientar os demais por meio da experiência.

Wagner Tomaz
22 de Outubro de 2026

Compartlhar
Enviar
Twitter
Telegram

Salve este blog entre os seus favoritos, leia e fique por dentro do que você precisa saber.

Se inscreva no canal do Youtube e siga o editor no Twitter, Facebook, Instagram e Threads.