Direto da redação
Quem decretou a morte do rádio errou feio. Uma pesquisa divulgada em junho de 2026 pela Quaest, em parceria com a AMIRT e a ABERT, mostra que o veículo não apenas sobreviveu à era digital como se reinventou — e segue ocupando um lugar insubstituível na rotina e no imaginário dos mineiros.
O levantamento, batizado de “Para Além do Dial”, traça um retrato detalhado dos hábitos de consumo de rádio em Minas Gerais e chega a uma conclusão provocadora: o rádio não compete com a internet. Ele a absorveu.
Os números que impressionam
O alcance do rádio entre os mineiros é expressivo. Na Grande Belo Horizonte, 87% da população escuta rádio — seja na frequência AM/FM tradicional ou em plataformas online. Desse total, 55% são chamados de heavy users, ou seja, ouvem rádio de cinco a sete dias por semana.
A média diária de consumo chega a 3 horas e 48 minutos. A maior parte da audiência se concentra no período da manhã, entre 5h e 12h, de segunda a sexta-feira — padrão que evidencia o rádio como companhia da rotina de trabalho e deslocamento.
Em casa (20%), durante atividades domésticas (15%), no trabalho (14%), logo após acordar (13%) e em deslocamento (12%) são os momentos mais citados. O rádio, em essência, acompanha o mineiro ao longo de todo o dia.
Um hábito que atravessa gerações
Outro dado que desafia o senso comum: 75% dos mineiros que escutam rádio têm esse hábito há mais de 20 anos. E mesmo entre os jovens de 18 a 24 anos, 21% já ouvem rádio há mais de duas décadas — o que indica que o veículo cativa cedo e fideliza por longo prazo.
O conteúdo que os mineiros buscam ao ligar o rádio também é revelador: música (38%), notícias da cidade ou região (18%) e notícias do Brasil e do mundo (16%) lideram as preferências. O veículo é visto, portanto, como fonte de entretenimento e informação ao mesmo tempo.
Confiança que as redes não têm
Em um momento de desconfiança generalizada em relação às mídias digitais, o rádio aparece como porto seguro. A pesquisa revela que 81% dos mineiros consideram o rádio relevante nos dias de hoje. As razões principais: a notícia chega mais rápido e ao vivo, informa o que acontece na cidade ou região, e é considerado um meio seguro para confirmar notícias.
Os índices de credibilidade são notáveis. Segundo o levantamento, 68% dos mineiros afirmam que as informações do rádio não são fake news, 66% confiam no que escutam no meio e 50% consideram o rádio mais confiável do que outros meios de comunicação.
Esse capital de confiança se traduz em comportamento de consumo. Quando o assunto é publicidade, 62% dos mineiros afirmam confiar mais em marcas anunciadas pelo rádio do que em anúncios que aparecem no celular ou nas redes sociais. E 65% acreditam que sorteios e promoções no rádio são honestos e realmente premiam os ouvintes — algo impensável em relação às campanhas digitais, frequentemente associadas a golpes e clickbait.
O rádio como plataforma comercial
A pesquisa também derruba outro mito: o de que o rádio tem baixa eficácia publicitária. Os dados mostram que 34% dos mineiros conseguem citar espontaneamente propagandas ou vinhetas que ouviram no rádio — índice superior ao de formatos digitais como anúncios em podcasts e inserções em aplicativos de streaming musical.
O funil comercial gerado pelo rádio é consistente: 58% dos ouvintes pesquisaram um produto ou serviço após ouvir um anúncio no veículo, 48% efetivaram a compra e 41% ainda recomendaram o que ouviram para outras pessoas.
Outro achado relevante: 67% dos mineiros prestam mais atenção em anúncios narrados pelo locutor do que em comerciais gravados. A mesma proporção escolhe emissoras pelos locutores e apresentadores, e 64% prefere rádios com vozes da própria região. O talento humano, portanto, é o maior diferencial comercial do meio.
O rádio foi para a internet — e cresceu
A transformação do rádio para o universo digital é visível nos dados de menções espontâneas nas redes sociais: em 2024, o ecossistema de rádio gerou 160 mil citações online. Em 2025, esse número subiu para 268 mil. Até maio de 2026, já eram 2,5 milhões de menções — um salto que evidencia como o rádio deixou de ser um assunto apenas do dial para se tornar pauta nas redes.
Mesmo diante dessa expansão digital, 42% dos ouvintes ainda acessam o rádio pelo aparelho convencional. O celular aparece com 22% e o som do carro com 24% — o que demonstra que o meio convive com diferentes suportes sem perder audiência em nenhum deles.
Quando perguntados sobre o que sentem ao acessar conteúdo de rádio pela internet, 55% dos mineiros disseram que vivem “uma mistura dos dois”, o tradicional e o digital, dependendo do momento. Apenas 16% entendem que estão ouvindo rádio da mesma forma que no aparelho comum.
Conclusão: o rádio 3.0 já é uma realidade
A pesquisa fecha com uma síntese que resume bem o cenário: o rádio em Minas Gerais já opera na lógica 3.0 — molda vocabulário, engaja em causas sociais, tem credibilidade e dita o consumo por recomendação. Tudo isso rompendo as barreiras do dial.
Para quem trabalha com comunicação e mídia, a mensagem é clara: subestimar o rádio é um erro estratégico. Ele não é o passado. É, com dados na mão, um dos meios mais vivos, confiáveis e eficazes do ecossistema de mídia brasileiro.
