Direto da redação
Poucos sabem, mas Jackson do Pandeiro tinha no futebol uma paixão quase tão intensa quanto pela música. Nascido em Alagoa Grande (PB), e criado em Campina Grande, o Rei do Ritmo chegou a treinar como goleiro do Treze Futebol Clube na juventude. Depois que se mudou para Recife, torcia pelo Santa Cruz. Mas o amor maior sempre foi pelo Flamengo.
Ao longo da carreira, Jackson gravou dez músicas sobre futebol — da primeira Copa do Mundo à despedida de Pelé do Santos, passando pelo bi e tri mundiais do Brasil. A informação é do pesquisador e divulgador da obra do artista, Jocelino Tomaz, que se dedicou a mapear esse lado menos conhecido da discografia do cantor.
A relação entre Jackson e o futebol atravessou toda a sua obra. Já no primeiro LP, lançado em 1955, constava “1×1”, composição de Edgar Ferreira que se tornaria a mais conhecida das dez músicas futebolísticas do artista. A canção reverenciava o Santa Cruz, de Recife, mas foi escrita para servir a vários clubes — com um trocadilho que misturava as cores de diferentes times.
No último LP, “Isso é que é Forró”, de 1981, encerrou a discografia com “Bola de Pé em Pé”, mais uma homenagem ao Flamengo. Entre os dois discos, registrou as conquistas do bi e tricampeonato mundial, exaltou Pelé, Garrincha, Didi e toda a geração de ouro do futebol brasileiro.
As Copas em verso e ritmo
Três músicas se destacam na relação de Jackson com as Copas do Mundo. Em 1962, véspera do bicampeonato no Chile, gravou “Frevo do Bi”, imaginando um “baile de bola” comandado por Didi, Garrincha e Pelé. No ano seguinte, “Scratch de Ouro” celebrou o título citando todos os jogadores da seleção titular — incluindo Pelé e Amarildo, já que o Rei havia se contundido na segunda partida e sido substituído.
A Copa de 1966 rendeu duas músicas. “A Taça era Dela” criticou a polêmica vitória da Inglaterra na final contra a Alemanha, quando o árbitro validou um gol em que a bola não ultrapassou a linha. Já “Frevo do Tri” antecipava a conquista — mas foi gravada antes da hora. O compacto foi recolhido após o Brasil ser eliminado em 1966, relançado em 1970 com o tricampeonato, e trouxe uma surpresa: no lado B estava “Garota de Botafogo”, música que se acreditava ser de 1971, mas que o pesquisador Jocelino Tomaz descobriu, em 2019, ter sido gravada ainda em 1966, encontrada em disco com o colecionador Miguel Coelho, de São Paulo, 53 anos depois.
As últimas palavras
O futebol esteve presente até os últimos instantes de vida de Jackson do Pandeiro. Em julho de 1982, internado em coma em um hospital de Brasília, o cantor voltou a si brevemente enquanto o Brasil disputava a Copa do Mundo na Espanha. Ao lado da esposa, Neuza Flores, fez sua última pergunta: “O Brasil ganhou a Copa? Zico fez gol?”
Neuza respondeu que sim para não decepcioná-lo. O Brasil já estava eliminado, derrotado pela Itália em 5 de julho. Jackson do Pandeiro faleceu cinco dias depois, em 10 de julho de 1982.
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