Por Wagner Tomaz, especial para o Blog do Ikeda
Certo dia, durante a pregação de um pastor muito admirado, um de seus maiores admiradores aproximou-se dele, movido pela curiosidade. Aquele irmão o tinha como referência não apenas por seu vasto conhecimento teológico e por sua excelente oratória, mas, principalmente, pelo amor que demonstrava aos seus congregados e pelo exemplo de liderança que exercia.
Ao parabenizá-lo, disse:
— Pastor, o senhor é um exemplo que desejo seguir.
O pastor sorriu timidamente e respondeu:
— Nem sempre foi assim, meu amado irmão.
Após alguns instantes, começou a contar sua história.
— Desde muito jovem busquei crescer no conhecimento das Escrituras e aperfeiçoar minha oratória. Muitos diziam que eu era uma grande promessa para o ministério. Certo dia, fui convidado para assumir uma congregação prestes a se emancipar, pois o pastor que a dirigia já estava muito idoso e enfrentava sérios problemas de saúde.
— Quando cheguei, aquele velho pastor veio ao meu encontro, abraçou-me fortemente e disse apenas estas palavras:
— Ame… ame com todas as suas forças, pois este é o principal dom.
Imediatamente respondi:
— Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 13!
Ele sorriu e, enquanto se afastava, disse:
— Então, viva esse amor.
Confesso que ignorei aquelas palavras. Sentia-me plenamente preparado para liderar aquela grande congregação.
Com o passar das semanas, comecei a enfrentar diversos conflitos entre os irmãos. Um casal havia se afastado dos caminhos do Senhor e cometido vários erros. Chamei-os, disciplinei-os severamente e considerei o assunto encerrado.
Em outra ocasião, um mendigo aproximou-se da igreja pedindo ajuda. Disse que precisava de Cristo. Limitei-me a responder:
— Deus te abençoe.
E virei as costas.
Havia também um irmão que não concordava com minha chegada por eu ser muito jovem. Retirei todos os cargos dele e também de sua esposa, principalmente porque ela era reservada e pouco se aproximava de mim.
Reestruturei toda a liderança da congregação, substituindo os antigos dirigentes por pessoas de minha confiança.
Meses se passaram. Aos poucos, percebi que muitos irmãos começaram a manter distância de mim. Decidi, então, pregar justamente sobre o amor descrito em 1 Coríntios 13.
Preparei um excelente sermão. Falei com eloquência, domínio das Escrituras e convicção. Muitos visitantes se emocionaram durante a mensagem.
Ao término do culto, a esposa daquele irmão aproximou-se de mim e disse:
— Pastor, parabéns pela palavra. Foi uma mensagem extraordinária… mas faltou uma coisa.
Aquelas palavras me incomodaram profundamente.
— E o que faltou? — perguntei.
Ela respondeu calmamente:
— Vivê-la.
Fiquei indignado. Acreditei que sua observação fosse apenas consequência da perda dos cargos dela e de seu esposo.
Ela não discutiu. Apenas permaneceu em silêncio, despediu-se e foi embora.
Na manhã seguinte, recebi uma ligação.
Do outro lado da linha, um diácono, com a voz trêmula, disse:
— Pastor… aconteceu uma tragédia.
Assustado, perguntei:
— O que houve?
Ele respondeu:
— A irmã Cleide, esposa do irmão José… tirou a própria vida.
Naquele instante senti minhas forças desaparecerem. Era justamente a irmã que, na noite anterior, havia me dito que eu precisava viver aquilo que pregava.
Eu dominava o conhecimento, mas desconhecia sua verdadeira prática.
Depois daquele acontecimento, a congregação começou a desmoronar. Cerca de dois terços dos membros deixaram a igreja. Passei a ser conhecido como um homem soberbo, orgulhoso e distante.
Percebi, tarde demais, que eu era rico em conhecimento, mas pobre no exercício do maior de todos os dons: o amor.
Algum tempo depois, renunciei ao ministério.
Passei meses refletindo sobre meus erros. Decidi visitar cada irmão que havia deixado a congregação para pedir perdão pessoalmente.
Chorei em cada visita.
As palavras da irmã Cleide ecoavam constantemente em meu coração:
“Faltou vivê-la.”
O último a quem visitei foi o irmão José.
Assim que me viu, caminhou em minha direção e me abraçou. Ambos choramos como nunca.
Então ele me disse algo que jamais esquecerei:
— Pastor, a Cleide era uma das pessoas que mais acreditava no seu ministério.
Aquelas palavras atravessaram meu coração como uma espada.
Naquele momento compreendi que o verdadeiro ministério não é construído apenas com conhecimento, autoridade ou eloquência, mas com compaixão, humildade e amor.
Depois disso, retornei à minha igreja de origem e decidi recomeçar.
Passei a dedicar minha vida a viver aquilo que o Senhor desejava me ensinar: o maior dom é o amor.
Comecei a visitar os irmãos, compartilhar suas alegrias e suas dores, ouvir suas dificuldades, aconselhá-los, orar com eles e tornar-me parte de suas famílias.
Com o tempo, Deus concedeu-me uma nova oportunidade.
Fui enviado para iniciar uma nova congregação.
Hoje ela é reconhecida não pelo tamanho, nem pelos recursos que possui, mas pela união entre os irmãos, pelo cuidado mútuo e pelo amor dedicado à obra do Senhor.
Foi então que compreendi uma verdade que jamais esquecerei:
O conhecimento impressiona, os dons edificam, mas somente o amor transforma vidas.
– Texto baseado numa pregação e um diálogo posterior –