SILVANA FERNANDES: DO SERTÃO PARA O TOPO DO MUNDO NO PARATAEKWONDO

Por Samara Vicente e Mariana Mélo, especial para o Blog do Ikeda

Nascida e criada em São Bento, na Paraíba, Silvana sempre foi uma figura notável, especialmente porque a presença de pessoas com deficiência não é comum no sertão paraibano. Sua condição congênita foi descoberta no momento do nascimento. Durante a gestação, o médico acreditava que o braço estava posicionado atrás das costas. só no parto a mãe descobriu que a criança nasceu sem um dos braços. No entanto, essa revelação não abalou a família, que acolheu Silvana com muito amor desde o início. Desde seus primeiros passos, Silvana se destacou não pela deficiência, mas pela sua força de vontade e pela busca incessante de seus sonhos.

Atualmente, Silvana é uma atleta dedicada. Sua paixão pelo esporte surgiu na adolescência, quando foi apresentada ao universo paralímpico pelo professor de educação física Pedro Filho. Silvana não conhecia esse mundo até ele abrir seus olhos para essa nova possibilidade. A família é o alicerce de seu sucesso e Silvana sempre expressa sua gratidão. Sempre aplaudo minha família, pois em todas as escolhas da vida, eles foram os primeiros a apoiar.” Esse suporte foi crucial quando a menina decidiu deixar o sertão para seguir sua paixão pelo esporte. Silvana também teve apoio financeiro da prefeitura de São Bento.

Silvana se mudou para João Pessoa, onde intensificou seus treinos no atletismo, especialmente no lançamento de dardo, e conquistou o título de campeã brasileira. Após um tempo na modalidade, Silvana soube que não haveria vaga em sua categoria para o Parapanamericano de Lima. Esse foi um dos momentos mais desafiadores de sua carreira, marcado pelo medo de não alcançar uma vaga nas Paralimpíadas e pela desmotivação diante da perspectiva de um esforço contínuo.

Foi nesse período de incerteza que um olheiro do Comitê Paralímpico Brasileiro sugeriu que ela tinha potencial para o parataekwondo, uma modalidade que estrearia nos Jogos Parapan e Paralímpicos. Embora Silvana estivesse interessada, ainda não conhecia o esporte. Em uma competição subsequente, o olheiro perguntou se ela conhecia o parataekwondo, e ela explicou que não tinha ninguém para apresentá-la à modalidade. A proposta de um teste com o técnico da seleção brasileira surgiu, e Silvana aceitou prontamente.

Quando pisou no tatame, a conexão foi imediata. “Na primeira vez que pisei no tatame, senti que realmente pertencia àquele lugar, como se toda a minha jornada no atletismo tivesse me preparado para aquele momento.” O técnico ficou impressionado com a facilidade de Silvana em executar os golpes e sugeriu que ela tentasse uma vaga para os Jogos de Tóquio. Apesar das dificuldades e das chances pequenas, Silvana se dedicou intensamente e conquistou a vaga para as Paralimpíadas de 2021.

Nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, Silvana brilhou ao conquistar a medalha de bronze. Antes disso, ela já havia participado dos Jogos Parapanamericanos de 2019, onde a medalha de ouro conquistada foi a confirmação de que havia feito a escolha certa. “Foi uma experiência emocionante, não apenas pela medalha, mas pela história que ela representou, pela transição vivida e pela certeza de que estava no caminho certo, tendo encontrado o esporte que mudaria minha vida.”

Silvana nos jogos de Tóquio

Ao retornar com a medalha de bronze de Tóquio, Silvana experimentou um momento de grande celebração em João Pessoa, com familiares, amigos e sua equipe presentes. Um desejo antigo foi realizado: desfilar no carro dos bombeiros. A sensação de orgulho ao erguer a bandeira e a medalha, afirmando que a vitória era paraibana, foi indescritível.

A recepção em São Bento, sua cidade natal, foi igualmente grandiosa. Na entrada da cidade, um banner parabenizava pela conquista, e muitas pessoas pediram para tirar fotos. Retornar com a vitória e mostrar que as pessoas do sertão podem alcançar grandes feitos foi um turbilhão de emoções para Silvana. “Ver tantas pessoas me admirando e se orgulhando foi emocionante. Onde quer que eu vá, cito São Bento, a cidade de onde vim.” Só de relembrar, ela se emociona.

Silvana celebra suas vitórias com um chapéu sertanejo, símbolo de sua cidade. Para ela, o esporte é uma forma de transformação social, e a disciplina, o respeito e o foco exigidos tornam o mundo um lugar melhor.

Sobre o preconceito no meio esportivo por ser parte da comunidade LGBTQIA+, Silvana afirma nunca ter enfrentado situações desconfortáveis, pois sua rotina era muito cheia e sua vida romântica, discreta. Após se tornar medalhista paralímpica, sentiu-se pronta para iniciar um relacionamento. Hoje, é noiva de Lanne Ribeiro, com quem se conectou pelas redes sociais e estabeleceu uma forte relação.

Conciliar uma agenda intensa com o relacionamento não é um desafio para ela. Durante a semana, ambas são ocupadas, mas os finais de semana são reservados para estarem juntas. Silvana destaca que a noiva é uma grande fonte de incentivo. “Quando termino uma competição, a primeira pessoa para quem envio uma mensagem de voz é ela: ‘amor, eu ganhei!’ Ela até brinca, dizendo: ‘Você é muito engraçada, sabe que eu estou assistindo e que você ganhou, mas mesmo assim você me avisa.’” Para Silvana, é profundamente emocionante compartilhar suas vitórias com alguém que a motiva e a ama.

Silvana, atualmente a número 1 do mundo em sua categoria, enfrenta o desafio constante de manter essa posição. Com a visibilidade crescente, suas adversárias estudam suas estratégias, tornando a tarefa ainda mais complexa. Ela e sua equipe estão sempre ajustando táticas e valorizando a disciplina.

Sua equipe inclui o treinador Adriano Lucena, que a acompanha seis dias por semana. Durante a entrevista, ficou evidente a proximidade entre eles. Adriano descreve Silvana como uma pessoa determinada, com um foco impressionante e uma dedicação constante para alcançar seus objetivos.

Além de Adriano, sua equipe conta com uma preparadora física, uma analista de desempenho, uma fisioterapeuta e uma nutricionista. A psicóloga esportiva é crucial para ajudar a lidar com a ansiedade, concentração e preparação mental.

Patrocinada pela Nike e pelo time Caixas Loterias, Silvana expressa profunda gratidão pelos apoios recebidos, que a motivam a continuar vencendo competições e mantendo-se no topo.

Silvana afirma que não se arrepende de nada e nem mudaria nada, nem mesmo os anos passados no atletismo. Ela acredita que a vida é feita de fases e que tudo pelo que passou a preparou para chegar onde está. “Se vocês forem ver, foram apenas três ou quatro anos para sair do nada e se tornar a melhor do mundo.”

Atualmente, Silvana é bicampeã mundial de parataekwondo e recentemente conquistou sua quinta medalha de ouro em Grand Prix. Neste ano, ela está participando dos Jogos Paralímpicos e tem grandes chances de conquistar mais medalhas, reforçando sua posição de destaque no esporte. Seu principal objetivo agora é ganhar o ouro paralímpico em Paris 2024.

Quando encerrar a carreira, Silvana pretende abrir um centro de treinamento, começando em sua cidade natal e, posteriormente, em João Pessoa. Ela acredita que o sertão tem muitos talentos que só precisam de uma oportunidade, e deseja oferecer essa chance.

Silvana deixa uma mensagem para aqueles que buscam realizar seus sonhos: “Quando vocês se dedicam 100% ao que querem, colocando força de vontade, disciplina e amor, conseguem. Hoje, sou a número um do mundo porque fui disciplinada para chegar até aqui. Nada é impossível; se uma pessoa conseguiu, qualquer um pode conseguir.” #Geral #Especial

Compartlhar
Enviar
Twitter
Telegram

Salve este blog entre os seus favoritos, leia e fique por dentro do que você precisa saber.

Se inscreva no canal do Youtube e siga o editor no Twitter, Facebook, Instagram e Threads.