Por Jocelino Tomaz de Lima
Ao encontrar no jornal A União uma matéria sobre o centenário da emancipação de Guarabira, constatei a seguinte programação: pela manhã, repicar dos sinos, salva de 21 tiros, missa, hasteamento de bandeira em frente as escolas, prefeitura, Mesa de Rendas e Instituto Comercial Pedro Américo; a tarde, inauguração do obelisco comemorativo, da placa da Praça 27 de Abril e da ponte do matadouro, desfile cívico, finalizado com discurso de Osmar de Aquino; e a noite, mais uma celebração religiosa, uma sessão cívica que teve como orador o Dr. Antonio Guedes, e um baile. Porém, esse evento se deu em 27/04/1937, e não em 26/11/1987, como se poderia supor. Por quase 140 anos a emancipação era comemorada nessa data, vamos entender o porquê e a polêmica sobre isso.
Em 27 de abril de 1837 a povoação de Guarabira, pela Lei Provincial nº 17, foi elevada a vila, com isso não pertenceria mais a Monte-Mor (atual Mamanguape), tendo um território próprio, autonomia política e administrativa, e passou a se chamar “Independência”. Na mesma data se deu a criação da Paróquia. Cinquenta anos depois, em 26 de novembro de 1887, devido ao seu desenvolvimento, marcado dentre outros fatores pela chagada do trem três anos antes, a vila foi elevada a cidade e voltou a se chamar de Guarabira, pela Lei nº 841.
Tenho que a elevação a vila é um marco mais importante do que a mudança de status para cidade. O fato de não pertencer mais a uma outra cidade, de adquirir autonomia política e administrativa, é a verdadeira emancipação. A mudança de categoria para cidade, devido ao desenvolvimento, à instalação dos três poderes ou à força política, também é importante, mas não tanto. Ressalto que tanto vila quanto cidade eram considerados município.
Consultei intelectuais paraibanos e um norte rio-grandense e a quase totalidade deles é da opinião de que a verdadeira emancipação é a elevação à vila. Alguns com mesmo ponto de vista foram: Renato César Carneiro, autor de livros sobre a história eleitoral da Paraíba e membro da Academia Paraibana de Letras; Ramalho Leite, presidente da Academia Paraibana de Letras, membro do IHGP e autor de livros sobre Bananeiras; Fernando Moura, presidente da Fundação Casa de José Américo; José Avelar, autor de livro sobre Alagoa Grande; Wellington Aguiar, autor de livro sobre a política de Araruna; Francelino Soares, pesquisador, escritor e fundador da Academia de Letras de Cajazeiras; Nemésio Gomes, autor de livro sobre a história da Comarca de Serraria; José Otávio, escritor e pesquisador de Catolé do Rocha; José Tavares, livros publicados sobre Pombal, cangaço e Guerra de Princesa; Erik Brito, professor de História da Paraíba da UFCG e autor de livro sobre a colonização da Paraíba; Fabiana Agra, autora de livros sobre Picuí e sobre cangaço; Rau Ferreira, autor de livros sobre a cidade de Esperança; Lúcia Guerra, professora aposentada da UFPB, doutora em História; Gustavo José, autor de livro sobre a história de Nova Cruz(RN). Em Guarabira, se manifestaram favoráveis à comemoração em 27 de abril, dentre outros, o intelectual Vicente Barbosa e o prof. Daniel Fernandes (do perfil “Belezas de Guarabira”).
Mas essa questão segue polêmica, entre os municípios mais antigos da Paraíba, parte celebram a elevação à vila e parte comemoram o status de cidade. Alguns que comemoram à elevação a vila são: Serraria, Araruna, Cajazeiras, Monteiro, Alagoa Nova, Brejo do Cruz, Catolé do Rocha, Teixeira, Pilar e Ingá. Já entre os que comemoram a elevação à cidade temos: Campina Grande, Mamanguape, Bananeiras, Itabaiana, Souza e Patos. Temos também casos em que comemoravam a elevação à cidade, mas viram que estavam errados e mudaram sua emancipação para a elevação à vila, como Alagoa Grande e Pombal. A falta de consenso leva a casos curiosos como o de Bananeiras e Araruna, onde a Araruna, que pertencia a Bananeiras, hoje, de acordo com a comemoração da emancipação, seja mais velha, uma contradição.
Em Guarabira, até a década de sessenta era comemorada a elevação à vila, ou seja, a “festa” era em 27 de abril e não 26 de novembro. O pesquisador José Paulo Ribeiro, que concorda que a emancipação está sendo comemorada erroneamente, localizou o texto integral da lei de 1837. A arquivista Tereza Raquel encontrou ofícios com o brasão antigo da cidade, que constava nos documentos oficiais, e no brasão está a data de 1837. Foi a lei nº 17 de 1977, do prefeito Roberto Paulino, que consolidou a mudança para a comemoração em de 26 de novembro.
Enfim, os que acham que a data e o ano que é comemorado nos últimos cinquenta anos está correta, então os guarabirenses que comemoraram o 27 de abril, juntamente com a criação da paróquia, por cerca de 130 anos estavam errados? as cidades mais antigas ou que se emanciparam até meados da década de trinta e comemoram à elevação a vila, ou seja, a maioria, também estão erradas? aqueles que se mobilizaram para tornar seu povoado uma vila, não merecem serem prestigiados? eis uma questão interessante.
Jocelino Tomaz de Lima (17/11/2025). #Cultura






